terça-feira, 21 de setembro de 2010

in your world

  Há algo que eu sempre procuro: um, digamos, "você", que na verdade não é ninguém, nem tem um tipo certo, e ao mesmo tempo já foi várias pessoas. Na maioria das vezes, não são realmente sentimentos. Mas eu tenho uma necessidade tão grande de sentir algo, que de vez em quando olho para alguém e no mesmo momento começo a imaginar mil coisas, uma história completa que invento na hora e costumo confundir com premonições. Pressentimentos de coisas que nunca realmente acontecem. E eu penso que sinto algo ou chegarei a sentir simplesmente porque eu não tenho controle sobre isso, preciso sentir até mesmo quando não sinto. Mesmo que nada nessa pessoa me interesse e mesmo que eu tenha acabado de conhecê-la e não saiba nada sobre ela.
  Há várias pessoas próximas de mim que, na minha mente, poderiam ser "você". Para cada uma delas há uma história diferente. Vocês que me vêem e falam comigo não a conhecem, nem podem imaginar e se surpreenderiam se soubessem dela, pensariam que eu nunca demonstrei que vocês poderiam estar inseridos em alguma. Acho que ninguém nem imagina.
 Mas nada pode passar de premonição, de idéia, porque há os meus muros e os muros de vocês. Para cada um, suponho, há um impedimento que reforça os meus próprios. Ainda que eu me aproxime e chegue ao ponto de tentar (o que é muito raro), daremos um passo atrás, mesmo sem perceber ou sem querer. Sim, daremos, porque ainda que vocês não saibam, toda vez que recuo é um passo que vocês antecedem ou fazem comigo, quase ensaiado. Seja através de um sinal negativo, uma distância, uma proibição, uma grande diferença ou a sua indisponibilidade, que pode vir de vários motivos.
  Houve um tempo, acreditem, em que eu cedia a todo e qualquer pressentimento. Eu não tinha experiência ou auto-conhecimento para entender e qualquer invenção era traduzida como um enorme e eterno sentimento que eu mesma desfazia logo depois, porque mesmo que tarde eu sempre percebia que não era real. O pior era quando eu não sentia absolutamente nada e a outra pessoa sim. E eu embarcava mesmo que não houvesse nada além dos meus risinhos nervosos, achando tudo aquilo muito divertido e empolgante enquanto inventava mais uma história. Também houveram, com mais frequência e bem menos duração, os amores não-correspondidos, as grandes tentativas que eu fazia demonstrando sentimentos gigantescos bem antes da hora, sentimentos que eu não tinha mas estavam incluídos na minha história. E isso já assustou muita gente, todos eles.
  É por isso que não me dou mais ao luxo de ceder às minhas vontades. Posso até inventar, mas não me permito me levar a sério. Imaginar é incontrolável até hoje, quando vejo minha história já está pronta e se repetindo na minha imaginação antes que eu possa evitá-la. Mas eu ainda posso não fazer nada até que ela desapareça. Guardar para mim mesma.
  Eu ainda penso que talvez, se eu tentasse me aproximar sem exageros, eu conseguiria começar uma história real e compartilhada, uma até mais interessante do que a que criei. Mas a verdade mais honesta que eu poderia dizer, depois de tanto tempo, é que ainda que eu queira muito entrar no seu mundo... o medo de sair do meu ou mudá-lo por definitivo é bem mais forte que essa vontade. Como não consigo passar muito tempo sem sentir nada, minha alternativa é sentir aquilo que eu mesma crio... e, com sorte, a pessoa que estiver representando nunca saberá de nada.

"too broken to belong, too weak to sing along
I'll comfort you my friend
helping you to blow it all away
in your world no one is crying alone
in your world no one is dying alone"

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